PARA O BEM DA OPERETA
Percival Puggina
Estamos sob vigência de uma lei eleitoral redigida e aprovada por congressistas que têm tanto medo da liberdade de opinião que conseguiram realizar a proeza de acabar com a crítica política nos períodos pré-eleitorais. Ou seja, iniciada a campanha, pode-se falar bem e mal de tudo e de todos, menos dos políticos que disputam o pleito e de seus partidos. Não é uma beleza? Assim, os contingentes de advogados que determinadas legendas vinham colocando a serviço da mordaça, buscando intimidar com sucessivos processos judiciais quem ousasse se opor a seus desígnios, podem se deslocar para outras formas de repressão. Eles estão, agora, por exemplo, catando irregularidades na propaganda de quem se atreve a invadir o usucapião que estabeleceram sobre os postes do Estado. Saibam, pois, os leitores, que não estou intimidado. Estou, isto sim, submetido a uma legislação covarde, cujos preceitos foram concebidos com o intuito de permitir que o processo eleitoral se transformasse, de fato, na opereta bufa a que vamos assistir.
Muito tenho escrito que não se faz democracia de qualquer jeito e que o jogo político implica regras precisas. Mas assim, também, já é demais. A verdade está ficando sufocada sob o peso de tantas normas que acabam por inibir a liberdade de opinião e a crítica política através da imprensa (única forma viável de comunicação numa sociedade de massa). Note-se que são poucos os momentos em que a realidade deveria ser buscada com tamanho afinco quanto aqueles em que se definirão as políticas públicas.
No entanto, nunca se andou tão distante da realidade quanto agora. Os próprios debates entre os candidatos acabam virando, por força da norma, um carrossel de breves acusações, em que uma boa estocada rende mais votos do que uma idéia consistente. Doravante, até o pleito, manietados os analistas, os jornalistas, os radialistas, só os artistas falam, não raro ocultos sob máscaras e fantasias concebidas para deslumbrar os olhos e o coração do público. Quem não procurou conhecer antes o que vai na cabeça de cada um agora mesmo é que não ficará sabendo.
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