PORTO ALEGRE, DOMINGO, 22 DE JUNHO DE 2003

Juremir Machado da Silva


ILUSÕES FURTADAS


 Definitivamente, e isto é só uma constatação, Jorge Furtado nunca fará um grande filme. Não por falta de talento. Simplesmente porque Furtado não gosta de cinema. O seu negócio, a sua paixão, sua tara, é a televisão. Nada de errado nisso. Só que é outra linguagem. Furtado discordará. Para ele, como especialista da imagem, cinema e televisão têm a mesma linguagem. O problema é que Furtado, pelo que vi e li, usa um conceito mutilado de linguagem, aquém da teorização sofisticada de nosso amigo comum Carlos Gerbase.

Furtado gosta mesmo é de sitcom ' essas comédias de situação tipo 'Os Normais' e 'Comédias da Vida Privada'. Ele mesmo já disse que poucos filmes brasileiros, resultado de meses de trabalho, são tão bons quanto certos episódios, feitos em pouco mais de um dia, de 'Os Normais'. Não deixa de ser verdade, dado que o cinema brasileiro é medíocre. Só que as tais comédias de situação, típicas da linguagem rasante da televisão, com verniz sofisticado, não têm profundidade dramática nem consistência psicológica. É o superficial com ar inteligente em cima de alguns diálogos mais inspirados e de uma capacidade razoável de 'colar' ao ar do tempo, principalmente de captar o que o telespectador que se considera inteligente acha inteligente: sua própria maneira de ser. Furtado sempre ri de um simulacro de piada. Não contesto a qualidade de Jorge Furtado. Mas seu novo filme, 'O Homem que Copiava', só confirma o que sempre pensei: Furtado é um bom publicitário que vendeu uma imagem de rebelde jamais demonstrada. Não por acaso ele se tornou um dos grandes valores da Rede Globo, pois a sua linguagem cinematográfica corresponde exatamente ao padrão Globo de televisão: o folhetim por camadas sociais. Enquanto Guel Arraes representa o humor tosco, Furtado lapida a sua arte de dar profundidade aparente ao profundamente superficial.

O que é linguagem? Simples: a forma de expressão de alguma coisa. Para Furtado, a linguagem do cinema e da televisão é a mesma porque tudo consiste em planos, cortes, seqüências, etc. Ora, o modo de captação da imagem e os instrumentos de organização dela numa 'obra', ao contrário do que sustentam especialistas da semiótica e estruturalistas, não é a linguagem, mas o fundamento que permite a expressão de uma linguagem. O que são, no futebol, o passe, o drible, o lançamento, o chute? Linguagem ou fundamentos? Fundamentos (como o corte e os planos no cinema). Pelé e Orlando Pataca usavam os mesmos fundamentos, mas linguagens diferentes. A arte consiste em usar os mesmos fundamentos para exprimir diferentes linguagens. Os fundamentos são mais o código do que a linguagem. Esta tem mais a ver com o estilo que com os fundamentos. Resumindo: linguagem é estilo, forma de expressão, exercício dos fundamentos. É assim que se fala no cotidiano. Seria patético dizer que a linguagem (a forma como se expressam futebolisticamente) de todos os jogadores é a mesma porque usam os mesmos fundamentos.

Seria bobo pensar que a linguagem de todos os escritores é a mesma porque usam os mesmos fundamentos (figuras de linguagem, etc.). Cinema e televisão captam imagens da mesma forma e tratam-nas com os mesmos instrumentos gerando linguagens diferentes. Nada impediria que coincidissem. Não se trata de um problema de natureza da expressão, mas de culturas distintas estabelecidas em função dos 'horizontes de expectativa' dos destinatários. Furtado fala a linguagem da televisão para um público que ainda gosta de cinema, mas que, alfabetizado na telinha, adora mesmo é o estilo, o ritmo, a pulsação, a aceleração, a leveza da televisão. É o cinema pop: um certo conteúdo de cinema com a linguagem da TV.

Furtado é um gênio: na televisão, finge fazer cinema. No cinema, faz televisão sem que o seu público perceba. Vende produtos da indústria cultural para consumidores que se identificam pela crítica da indústria cultural. Claro que tudo é indústria cultural nesse campo, mas Furtado não faz sequer parte de um Dogma 95, que, mesmo fazendo parte do jogo, mexe na linguagem do jogo e dá uma momentânea virada na mesa. A sua mágica consiste em convencer o seu público de que está fora do 'sistema' exatamente quando aumenta a rentabilidade do 'sistema'. Joga pelo resultado. Fracassa na bilheteria, mas fatura no conceito da tribo e na TV.


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