PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 17 DE SETEMBRO DE 2003

Editorial


JUROS PARA PAGAR JUROS


Crescer à base de empréstimos não é desenvolvimento; vale a dedução tanto para a economia individual quanto para a de grupo, nesta compreendidas as áreas pública e privada. Tomar emprestado significa prolongar a crise, eis que o dinheiro assim havido cria onerações novas que, a prazo determinado, terão que ser devolvidas com juros ao emprestador. A saúde financeira de pessoas e instituições pressupõe aumento de haveres por adição de frutos próprios desses mesmos haveres, gerados, esses frutos, por aplicações corretas, planejadas, sem previsão de riscos. Trata-se de obviedade, por certo, mas de repetição imperiosa quando lidos e ouvidos trabalhos de economistas a saudar operações do Fundo Monetário Internacional enchendo momentaneamente os cofres de países em dificuldade.

A história financeira mundial está plena de exemplos de como costuma ser penoso o pagamento do dinheiro que se toma a juros, e vale repetir que em termos de pessoas físicas ou de instituições. Só em caso de boa aplicação do montante emprestado, investimentos esses naturalmente difíceis porque começam onerados pelos encargos novos da própria operação, poderão excepcionalmente gerar crescimento. Veja-se o caso brasileiro: logo depois da Independência, e para podermos suportar a nova ordem política ameaçada, tomamos o primeiro empréstimo, na Inglaterra, em libras. Nunca mais nos libertamos. Só o conseguimos com novo dinheiro, este vindo dos emprestadores privados norte-americanos, e, depois da Segunda Grande Guerra, do FMI.

O economista Fernando Ferrari Filho, entrevistado pelo Correio do Povo dia 15, página 13, diz: 'O país não tem condições, por mais agressivas que sejam suas políticas de exportações e industrial, de impedir o problema da volatilidade do câmbio. Um novo acordo precisará ser firmado com o FMI em novembro, além do já encerrado de 30 bilhões de dólares. Sem esse, não conseguirá fechar a sua balança de pagamentos'. É a ronda continuada da exigência de novos empréstimos para pagar velhos empréstimos. Nesse tipo de operação, como poderão haver desenvolvimento e geração de empregos? O caso brasileiro explica os de todos os países necessitados.


Correio do Povo
Porto Alegre - RS - Brasil