Juremir Machado da Silva


O SEGREDO DO MAGO


60JUREMI.jpgDiante da gravidade dos fatos recentes, fui a Palomas entrevistar o Oráculo. Encontrei-o aparando a crina do seu zaino marchador. Cumprimentou-me alegremente com seu delicioso sotaque palomense do Norte. Como quase todo mundo sabe, os palomenses do Norte dizem 'a la fresca' enquanto os do Sul preferem 'a la pucha'. Sem contar que os do Norte pronunciam o 's' nos plurais e os do Sul falam à francesa, amputando ao plural essa letra final que consideram inútil e meio afrescalhada. Fui logo perguntando: 'Afinal, Paulo Coelho é bom ou ruim?' O Oráculo coçou discretamente os países baixos antes de responder altivamente: 'Depende.' Tive de me resignar a corresponder à sua jogada e, depois de alguma reflexão, questionei-o com argúcia: 'De quê?' Gumercindo, satisfeito com o meu tirocínio, alisou a cola do zaino, antes de apará-la, deu a sua tradicional cuspida no chão e soltou o verbo numa cadência gaudéria: 'Bueno, vivente, depende do pressuposto semiológico da crítica e do horizonte de expectativa do leitor'. A la pucha, quer dizer, a la fresca! - exclamei. Ele riu. Fiquei mais encabulado que guria nova com visita de homem de calça apertada. Sofisticadamente, pedi-lhe: 'Desembuche'. O Oráculo, antes de iluminar-me com o seu saber milenar, desligou o fone de ouvido de onde ainda escapava o som turbinado da banda escocesa Franz Ferdinand. 'A coisa é simples, tchê, esse Paulo Coelho de bobo não tem nada. Descobriu um segredo fundamental e ficou rico graças a isso.' Fiquei eriçado só de ouvir a palavra 'segredo'. Pensei no Santo Graal, em Maria Madalena, no Priorado do Sião. O 'enxerga longe', provando a sua imensa capacidade de tudo antecipar, leu os meus pensamentos: 'Não se deve confundir Paulo Coelho com o Código da Vinci, paisano.' Corei. Generoso, o Oráculo deu uma aliviada no freio: 'Se bem que O Zahir, esse último palavrório do nosso mago, tem alguns coelhos na cartola que lembram o código. Boa parte da história se passa em Paris; se no código uma mulher, Madalena, é o Santo Graal, outra, Esther, é O Zahir. Mesma origem, mesma lógica, mesma fórmula'. E o segredo? O Oráculo cofiou o imenso bigode, ajeitou a guaiaca e começou a picar um fumo de rolo mais fedorento que perfume paraguaio. Fez-me ficar acocorado a seu lado, numa espécie de ioga de bombacha. Olhou-me no fundo dos olhos e sussurrou: 'Vivente, não sei se estás pronto para saber'. Fiz uma cara de desconsolado. 'Se estivesses pronto, índio velho, tu o saberias por ti mesmo e não precisarias vir buscar a resposta neste fim de mundo.' Objetei que o personagem de Paulo Coelho buscará verdade no Cazaquistão. Guma soltou uma gargalhada e acho que, pelo estrondo, até algo mais. 'No Cazaquistão, vivente, não tem nem bosta de vaca quanto mais a verdade.' Afinal, quase me irritei, Paulo Coelho é bom ou ruim? O Oráculo examinou-me de cima a baixo. Tive a estranha sensação de que me desprezava. Então, falou: 'Há dois tipos de mundo: aquele com que sonhamos e aquele que é real.' Fiquei perturbado. Havia muita verdade no que acabava de pronunciar. 'Essa bobagem está no último livro do Paulo Coelho', revelou. Eu não me lembrava mais. Enrubesci do pescoço até o saco. 'Fica o amor que move o céu, as estrelas, os homens, as flores, os insetos e obriga todos a caminhar pela superfície perigosa do gelo, nos enche de alegria e medo, mas que dá um sentido a tudo', continuou Guma. Era mais um fragmento de O Zahir. O senhor não crê no amor? 'Creio, claro, já me enrabichei muito, mas o céu continuou no mesmo lugar e as estrelas nem piscaram.' Senti-me desconfortável. 'Sabe como se chama o que o Paulo Coelho faz?' Não. Eu não sabia. Se soubesse, não estaria ali. 'Estelionato espiritual, vivente, só isso.' Indignei-me. Desafiei-o a desvendar o segredo descoberto pelo mago. O Oráculo aproximou-se de mim até que senti seu hálito de fumo de rolo, de cachaça e carne gorda. Havia um halo em torno da sua cabeleira desgrenhada. Acho que eu ouvia, sem que houvesse qualquer música, Mozart ao fundo. As coxilhas ondulavam. O Oráculo, envolto por uma aura, disse: 'Aquilo que vou contar vai mudar para sempre sua vida'. Fale, implorei. Ele falou: 'Paulo Coelho descobriu que boa parte da humanidade é idiota'.
 


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