O SEGREDO DO MAGO
Diante
da gravidade dos fatos recentes, fui a Palomas entrevistar o Oráculo.
Encontrei-o aparando a crina do seu zaino marchador. Cumprimentou-me alegremente
com seu delicioso sotaque palomense do Norte. Como quase todo mundo sabe,
os palomenses do Norte dizem 'a la fresca' enquanto os do Sul preferem
'a la pucha'. Sem contar que os do Norte pronunciam o 's' nos plurais e
os do Sul falam à francesa, amputando ao plural essa letra final
que consideram inútil e meio afrescalhada. Fui logo perguntando:
'Afinal, Paulo Coelho é bom ou ruim?' O Oráculo coçou
discretamente os países baixos antes de responder altivamente: 'Depende.'
Tive de me resignar a corresponder à sua jogada e, depois de alguma
reflexão, questionei-o com argúcia: 'De quê?' Gumercindo,
satisfeito com o meu tirocínio, alisou a cola do zaino, antes de
apará-la, deu a sua tradicional cuspida no chão e soltou
o verbo numa cadência gaudéria: 'Bueno, vivente, depende do
pressuposto semiológico da crítica e do horizonte de expectativa
do leitor'. A la pucha, quer dizer, a la fresca! - exclamei. Ele riu. Fiquei
mais encabulado que guria nova com visita de homem de calça apertada.
Sofisticadamente, pedi-lhe: 'Desembuche'. O Oráculo, antes de iluminar-me
com o seu saber milenar, desligou o fone de ouvido de onde ainda escapava
o som turbinado da banda escocesa Franz Ferdinand. 'A coisa é simples,
tchê, esse Paulo Coelho de bobo não tem nada. Descobriu um
segredo fundamental e ficou rico graças a isso.' Fiquei eriçado
só de ouvir a palavra 'segredo'. Pensei no Santo Graal, em Maria
Madalena, no Priorado do Sião. O 'enxerga longe', provando a sua
imensa capacidade de tudo antecipar, leu os meus pensamentos: 'Não
se deve confundir Paulo Coelho com o Código da Vinci, paisano.'
Corei. Generoso, o Oráculo deu uma aliviada no freio: 'Se bem que
O Zahir, esse último palavrório do nosso mago, tem alguns
coelhos na cartola que lembram o código. Boa parte da história
se passa em Paris; se no código uma mulher, Madalena, é o
Santo Graal, outra, Esther, é O Zahir. Mesma origem, mesma lógica,
mesma fórmula'. E o segredo? O Oráculo cofiou o imenso bigode,
ajeitou a guaiaca e começou a picar um fumo de rolo mais fedorento
que perfume paraguaio. Fez-me ficar acocorado a seu lado, numa espécie
de ioga de bombacha. Olhou-me no fundo dos olhos e sussurrou: 'Vivente,
não sei se estás pronto para saber'. Fiz uma cara de desconsolado.
'Se estivesses pronto, índio velho, tu o saberias por ti mesmo e
não precisarias vir buscar a resposta neste fim de mundo.' Objetei
que o personagem de Paulo Coelho buscará verdade no Cazaquistão.
Guma soltou uma gargalhada e acho que, pelo estrondo, até algo mais.
'No Cazaquistão, vivente, não tem nem bosta de vaca quanto
mais a verdade.' Afinal, quase me irritei, Paulo Coelho é bom ou
ruim? O Oráculo examinou-me de cima a baixo. Tive a estranha sensação
de que me desprezava. Então, falou: 'Há dois tipos de mundo:
aquele com que sonhamos e aquele que é real.' Fiquei perturbado.
Havia muita verdade no que acabava de pronunciar. 'Essa bobagem está
no último livro do Paulo Coelho', revelou. Eu não me lembrava
mais. Enrubesci do pescoço até o saco. 'Fica o amor que move
o céu, as estrelas, os homens, as flores, os insetos e obriga todos
a caminhar pela superfície perigosa do gelo, nos enche de alegria
e medo, mas que dá um sentido a tudo', continuou Guma. Era mais
um fragmento de O Zahir. O senhor não crê no amor? 'Creio,
claro, já me enrabichei muito, mas o céu continuou no mesmo
lugar e as estrelas nem piscaram.' Senti-me desconfortável. 'Sabe
como se chama o que o Paulo Coelho faz?' Não. Eu não sabia.
Se soubesse, não estaria ali. 'Estelionato espiritual, vivente,
só isso.' Indignei-me. Desafiei-o a desvendar o segredo descoberto
pelo mago. O Oráculo aproximou-se de mim até que senti seu
hálito de fumo de rolo, de cachaça e carne gorda. Havia um
halo em torno da sua cabeleira desgrenhada. Acho que eu ouvia, sem que
houvesse qualquer música, Mozart ao fundo. As coxilhas ondulavam.
O Oráculo, envolto por uma aura, disse: 'Aquilo que vou contar vai
mudar para sempre sua vida'. Fale, implorei. Ele falou: 'Paulo Coelho descobriu
que boa parte da humanidade é idiota'.