INSTRUÇÕES PARA DESILUDIR ELEITORES
Trate tudo como mercadoria. A começar pelo voto. Monte um programa para ganhar a eleição e outro para governar. Faça sempre declarações e promessas ambíguas. Assim, poderá negar todas elas quando for necessário. Nunca confie em conselheiros políticos. Só ouça o seu marqueteiro.
Faça como muitos dos eleitores. Pratique a infidelidade. Partidária. Troque de partido como quem troca de carro importado com dinheiro de propina. Lembre-se de que os tempos atuais são pluralistas e não se prenda a nenhum engajamento. Corra para onde está o dinheiro. Aposte sempre no mercado. Não venda barato um voto que pode decidir uma reforma estrutural e encher de dinheiro os que já têm muito e, por isso mesmo, patrocinam as campanhas vencedoras. Seja obsceno. Não se envergonhe de tentar abafar o que sempre defendeu como princípio. Na política, a mentira é como um cheque pré-datado. Quando estoura, já é tarde para quem acreditou. Minta sempre que a razão de Estado (o seu interesse pessoal ou partidário) exigir. Se descoberto, diga que matou no peito. Não conte nada para mulher alguma. Elas sempre entregam tudo. Aqui vai um verbete para europeu ler no ano do Brasil na França. O PT é obsceno: faz falar dele sem parar. Parece a televisão. A obscenidade partidária é um pleonasmo. Como sempre, somos originais. Apaixonamo-nos pelo canalha simpático que nos perfuma com esterco.
A reforma política já começou. Nos bastidores. PT e PTB fundiram-se. Surgiu o PT-B. União pragmática baseada na mesma visão de economia e de investimento pela qual até o voto é um produto à venda. Quase todos têm seu preço. Vai da merendinha ao mensalão. Ficaram para trás os partidos da ética e da boquinha. Agora, só tem o partido da mala. O politicamente correto não deixa ninguém falar a verdade. Não se pode dizer que o povo não sabe votar. Não sabe mesmo. Eu não sei. Votei no PT. Se tivesse votado em outro partido, teria errado também. Se não tivesse votado, seria outro erro. O essencial da democracia é a possibilidade infinita do erro. Estamos bem até a eternidade. Precisamos de políticos para que nos convençam de que não podemos viver sem eles. Jean Baudrillard ensinou mil vezes que a força de um partido de esquerda está em quase chegar ao poder, tendo a inteligência de, no último momento, esquivar-se da vitória. O PT não quis ouvir e brigou até encastelar-se no Planalto.
O fracasso era certo. Esperto, Lulla adotou a política econômica de Fernando Henrique e abraçou-se com a escumalha em busca de bons negócios. Havia uma justificação ideológica para isso. Era uma estratégia para fazer avançar o seu projeto socialista. Recuar meia dúzia de passos para avançar uma centena. O PT não considerava a astúcia dos amigos-inimigos. Pensou que era escorpião. Era sapo. Barbudo. Como já se avista a margem da próxima eleição, uma autodenúncia adversária foi feita para afogá-lo na própria água suja. Era muito lobo no mesmo saco. O PT ainda sustenta que tem projetos e utopias. Os demais têm interesses. Aí está o álibi supremo até para o mensalão. De fato, o PT era uma utopia. Não saiu da planície. Tem petista que não aceita a comparação entre Lulla e Collor. Diferença? As elites estão maravilhadas com a política econômica de Lulla, o que não aconteceu com Collor.
Tem muita gente contente, de nariz empinado, dando o troco aos petistas que, por anos, pisotearam todos os que ousaram duvidar. Criticar o PT era falta de ética. Dá até pena a crista baixa dos petistas. Só a dos gremistas anda mais rasteira. Gremistas, argentinos e petistas não são confiáveis. Basta uma vitoriazinha magra aqui e ali para que ressurjam com o mesmo discurso, a mesma empáfia, a mesma verve, a mesma convicção de que sempre foram e serão os melhores. São anticartesianos por natureza: só têm certezas. Assim como eu não quero ver o Grêmio na terceira divisão (a mesa poderia ser virada para colocá-lo diretamente na primeira), não desejo o impeachment do Lulla. Serviria para transformá-lo em mártir ou santo. Sem qualquer bênção.
Como foi possível acreditar que um operário na Presidência faria o milagre que ninguém mais fez? Só um povo que acreditou no amor do Ronaldinho e da Cicarelli e chamou de herói o vencedor do 'Big Brother Brasil' poderia ter caído numa esparrela tão grande. Somos babacas. Já estamos dispostos a crer na reforma política dos mesmos que sempre nos enrolam: financiamento público de campanha e voto em lista. Vai ser uma festa. É a eleição suruba. Vota-se em Eduardo Suplicy e elegem-se de contrapeso Sílvio Pereira e Delúbio Soares. Tudo com dinheiro público (nosso) justificado com muita nota fria. Acabamos apoteoticamente sodomizados, ao som do Hino Nacional e com narração do Galvão Bueno. Solene. A mala de Pandora está aberta. Venham!