CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, DOMINGO, 18 DE ABRIL DE 1999

Museu é o maior símbolo do renascimento de Bilbao




04MUSEUE.jpg O Museu Guggenheim, moldado em reluzentes placas de titânio, muda de cor ao longo do dia


Apesar da instabilidade política e da decadência econômica, o País Basco continua a ser um pólo turístico relevante na Europa e ponto importante na viagem a Santiago. Isto porque para combater o processo de empobrecimento de Bilbao, que já foi o maior pólo industrial da Espanha, foi iniciado há dez anos um planejamento estratégico para a revitalização da região. A cidade foi tratada como uma empresa, conta Leticia Barturen Besga, responsável pela área de Imagem e Comunicação da associação de utilidade pública.

A poluição ambiental, os desajustes sociais decorrentes da pobreza e do desemprego e a descaracterização de Bilbao foram apontados como os principais problemas da região pelos estudos iniciais. A partir dessas conclusões, foi estabelecido que, com o fim do ciclo industrial, a cidade deveria voltar-se para o setor de serviços avançados e também se tornar uma referência cultural para o resto do país e para o mundo. Com o grupo separatista basco ETA também foi negociada uma trégua, que já dura mais de seis meses, embora a situação continue delicada, especialmente após a prisão de alguns líderes.

A mais vistosa das medidas levadas a cabo pela gestão conjunta da prefeitura, Comunidade Autônoma Basca, governo central de Madri e União Européia, foi o Museu Guggenheim Bilbao. Em apenas um ano, o museu, que já é chamado carinhosamente pelos bascos de Gug, rendeu mais do que custou e foi visitado por 1,36 milhão de pessoas, o triplo do estimado. Virou o símbolo maior do renascimento de Bilbao. Seu arquiteto, o canadense Frank Gehry, idealizou uma estrutura irregular sem linhas retas, moldada em reluzentes placas de titânio, gesso, pedra e vidro. O pé-direito é muito alto e as salas de exposição são vazadas, algumas com uma espécie de mezanino. O Gug está na margem do rio, como um imenso navio ancorado que muda de cor ao longo do dia, refletindo o céu.

O interesse da Fundação Guggenheim em ter uma base na Europa veio a calhar nos planos dos bascos. 'Conseguimos unir o bem comum a interesses comerciais, mas foi preciso provocar uma mudança de mentalidade', afirma Leticia Besga. Segundo ela, foi difícil fazer a população acreditar que produtos como cultura e serviços ajudariam a mudar a cidade.

Bilbao sofreu e ainda sofre outras mudanças. Antes do museu, a capital da província de Biscaia ganhou um metrô. O rio deve estar despoluído em 2004, um anel viário vai tirar o tráfego do centro e propiciar a criação de mais áreas de pedestres. Agora, há um novo centro de convenções, o Palácio de Congressos e da Música. As escolas de idiomas estão em boa fase, pois é necessário formar profissionais para trabalhar nos hotéis, restaurantes e no comércio. Até mesmo outros museus da cidade estão se beneficiando do 'efeito Guggenheim'. O Museu de Belas Artes, por exemplo, está sendo ampliado, já que seu público aumentou bastante.

Outro efeito, desta vez o '007', deverá se fazer notado em breve, já que o ator Pierce Brosnan, que interpreta o agente britânico no cinema, esteve na cidade para gravar algumas cenas do próximo filme de James Bond. Também fazem parte do elenco a italiana Maria Grazia Cuccinotta, o escocês Carlyle e a francesa Sophie Marceau.

No último ano, os visitantes que chegavam a Bilbao às vezes nem dormiam na cidade. Ficavam apenas o tempo necessário para visitar o Gug. Com tantas melhorias em curso e um agente secreto como trunfos, porém, a tendência é que os turistas se rendam a uma cidade em transição, rumando para a vanguarda, mas que cultiva ainda antigas paixões, como a boa mesa e o futebol do Athletic Bilbao.



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